‘Weinprobe – Diversidade Espanhola’ por Carla Purcino

Ao ser convidada pelo Marcelo Andrade para representá-lo na degustação ‘Weinprobe – Diversidade Espanhola’, no último dia 25, senti um misto de medo, responsabilidade e agradecimento. Medo, pois iria, pela primeira vez, registrar minhas impressões de maneira pública a respeito de vinhos. Responsabilidade, pois sou uma leiga, enófila; não uma enóloga, sommeliére ou qualquer outra denominação que possa me conferir autoridade sobre o assunto. Agradecimento, por fim, pois o convite refletia a permanência da amizade surgida em 2007, quando fui aluna de um de seus cursos.

Passada a adrenalina inicial, lá fui eu para o Club Transatlântico, na Granja Julieta – São Paulo, sem imaginar em absoluto a noite agradabilíssima que me aguardava. Fui recebida pelo Jan, gerente de A&B do Weinstube, restaurante onde se realizou o encontro. O Weinstube apresenta uma culinária alemã de primeira linha, que vai além das obviedades típicas sem perder a identidade cultural, e também possui cartas de cerveja e vinhos excepcionais. Porém, meu fascínio maior recaiu sobre o seu lindo painel de azulejos, de aproximadamente 4m x 1,5m, com as principais personalidades e destaques da cultura germânica.

A degustação foi conduzida pelo Juan, da importadora Almería. O nome da empresa denota suas raízes e vocação: além de ser a terra natal de nosso anfitrião, apresenta uma interessante carta especializada em rótulos espanhóis – o que comprovaríamos logo em seguida. Mas, afinal, por que uma degustação de vinhos espanhóis em um restaurante alemão? Como nem só de beber consiste a cultura da bebida, Juan fez questão de nos ensinar sobre a relevante relação comercial entre os dois países. A Alemanha é, hoje, o segundo país que mais importa vinhos espanhóis. Ah, tá! Tudo explicado, fomos aos vinhos! Lembro aos leitores que o post trata-se da observação quiçá pretensiosa de uma mera amante de vinhos. Logo, as impressões e opiniões tem respaldo mais nos meus 5 sentidos do que em qualquer estudo prévio. Sejam condescendentes. 😉

Começamos com o branco Paco e Lola 2011, cuja belíssima apresentação (rotulagem), que me atraiu logo que cheguei, já foi várias vezes premiada. O conteúdo, no entanto, faz jus ao seu invólucro. Galego, produzido nas Rías Baixas com a uva Albariño – a mesma que em terras portuguesas dá origem ao vinho verde – esta bebida de cor amarelo dourada me lembrou “os cabelos do pequeno príncipe”, de St. Exupéry. O olfato, cítrico, trouxe imediatamente maçãs verdes. Na boca, uma ‘beliscada’ muito leve me fez compreender seu parentesco com o primo português, do qual difere pelo tempo de maturação das uvas antes da colheita. Uma bebida ácida e fresca, ideal para acompanhar mariscos, ostras e pescados leves. Mas que, numa ousadia recomendada pelo próprio Juan, encararia um leitãozinho a pururuca.

O segundo vinho da noite foi o Canforrales Selección 2011, da região de La Mancha. Produzido com 100% de uvas Tempranillo, de videiras de mais de 40 anos. Sua cor, belíssima, transitava entre cereja escura e ameixa. No nariz, o carvalho dos barris de armazenamento se apresentava forte e rapidamente, mas eu ainda sentia algo de especiaria que demorei a identificar como sendo pimenta. Juan mencionou que este vinho possui notas de frutas compotadas, mas não foi o que senti. Quanto ao paladar, um vinho de taninos fortes, que mereciam amaciar com o tempo…

Em seguida, passamos ao La Tribu, um assemblage de Monastrell, Syrah e Garnacha, produzido na região da Valencia. Apesar de sua composição e origem diferenciadas, a cor era bem semelhante ao vinho apresentado anteriormente – um tom fechado de cereja escura, quase ameixa, porém com uma borda talvez um pouco mais rosada que o anterior. Sua lágrima, linda e lenta, também encantou os olhos. Foi o vinho mais polêmico da noite, pois, quando fomos para a análise olfativa, um “Iwwwwwww” de espanto e quase repulsa se ouviu entre os participantes. Sim, o La Tribu cheira a borracha queimada! Nada mais adequado em tempos de manifestações, não acham? Passado o susto inicial, ele recompensou os esforços de quem não se deixou intimidar pelo aroma um tanto sui generis: untuoso, acolhedor, com taninos muito equilibrados. Um vinho, no mínimo, inusitado e para gerar muitas conversas.

Cuadrado, o quarto vinho da noite, incorporou em seu assemblage a Petit Verdot à Monastrell e Syrah. Produzido na região da Jumilla, sua coloração de sangue, com bordas entre o avermelhado e o alaranjado chama a atenção. Pensei, inclusive, tratar-se de um vinho de mais idade; mas estávamos diante do resultado da safra de 2009 com uma lágrima muito bonita. No nariz, um odor de madeira mais suave, algo metálico. Fiquei me perguntando se esta última sensação teria relação com o alcaçuz mencionado posteriormente pelo Juan. O tanino forte, porém equilibrado, fez conjunto com a igualmente equilibrada acidez. Ao prová-lo, sentem-se ameixas e um retrogosto de especiarias. Juntando a complexidade e harmonia entre olfato, paladar e visual, me pareceu o mais forte candidato a impressionar os convivas.

A sutileza irônica do Juan se revelou no último escolhido para a nossa noite: Punto y Coma. Sim, pois beber vinhos nunca deve ter um ponto final! Produzido na região de Catalyud com 100% de uvas Garnacha, é um vinho mais despretensioso, porém não menos interessante, com uma cor leve, de cereja mais rosada e sem lágrima persistente. Seus aromas balsâmicos deliciam e intrigam, bem como o sabor de frutas vermelhas agrada facilmente.

O que mais me fascina no vinho é que a bebida, bem como as relações humanas, evolui, muda, surpreende. E foi assim que, ao terminar a rodada de degustações, voltei para os meus “fundos de copo”. Neste momento, é preciso que se faça um parênteses: entre os presentes da minha mesa, apenas as mulheres tinham se utilizado desse recurso. Nas taças masculinas, não restava uma gota sequer para uma segunda avaliação. Ficamos rindo e nos perguntando o que isto poderia significar. Voltando à avaliação tardia, uma grata surpresa: o Canforrales Selección 2011, que inicialmente tinha me assustado um pouco com a dureza dos taninos e do álcool, brilhava entre os demais, soberano. E foi assim que encontrei meu eleito da noite que, por coincidência, foi o mesmo do nosso anfitrião e do qual acabei trazendo 2 garrafas pra casa.

Não bastasse a noite perfeita até então, tive ainda o prazer de ser convidada pelo Jan para jantar no Weinstube e confesso não me arrepender nem um pouco de ter aceitado o convite. Eu, que nunca fui muito fã dos pratos alemães, me entreguei apaixonadamente a um Paprikaschnitzel acompanhado ‘sacrílegamente’ por vinho espanhol ao invés de uma boa cerveja alemã. Vale lembrar que as degustações acontecem sempre na última terça feira do mês, gratuitamente, para até 50 convidados e sempre com um fornecedor de vinhos diferente.

Enfim, uma noite memorável proporcionada pela gentileza do querido Marcelo, que espero ter honrado com este relato. Santé! Ou, melhor, ¡a tu salud!

Nota: Amiga Carla,  escolhi a pessoa certa para me representar nesta degustação inédita. Sabendo da sua capacidade como enófila e entusiasta do vinho, foi fácil! Parabéns pelo post e muito obrigado!

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